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03 outubro 2013

Livros - Equador | Miguel Sousa Tavares

Confesso que, para além dos clássicos, li muito poucos livros de autores portugueses. Lamento.
Para além de Saramago, que não encontra paralelo em mais nenhum escritor, nunca me apaixonei por nenhum autor português, nem criei um gosto especial em ler livros com Portugal como cenário. 
Os que li, sempre os senti demasiado frios, pretensiosos, com pouca atenção ao nosso folclore, à magia dos velhos costumes e tradições. Sem a paixão meridional nem a retórica do hemisfério norte, algures no meio, tal como o Equador, que dá nome ao livro. 

O livro, um romance histórico com São Tomé e Príncipe como cenário, foi lido ociosamente, sem pressas e sem a sofreguidão presente em muitas das minhas leituras.
Infelizmente, da mesma forma relaxada que li o livro, o terminei e dei por mim sem conseguir perceber como o comentar. Sim, claro, posso falar da estrutura da narrativa, as inúmeras aprendizagens que fiz, os momentos prazerosos na leitura ou a construção das personagens, mas sem ser capaz de resumir o livro no seu todo. E, como bem sabemos, o todo é maior que a soma das suas partes pelo que qualquer análise que apresente aqui será inevitável e miseravelmente incompleta.




Eu gostei do livro, principalmente da temática deste e dos cenários que o compõem.  De igual modo, relacionei-me com Luís Bernardo Valença, personagem principal, e ganhei afecto pelos seus defeitos, o seu cinismo, a sua cadência para a luxúria em contraste com a candura dos seus valores sociais. João e David, que em conjunto com Luís Bernardo constituem o núcleo principal masculino, são personagens   que facilmente garantem a simpatia do leitor.
O problema reside fundamentalmente na construção das personagens femininas, principalmente de Ann. E que é algo que é transversal a muitos autores masculinos. Uma mulher não se torna bela aos olhos de outra mulher por se referir inúmeras vezes a firmeza e tamanho dos seus seios ou a espontaneidade da sua sexualidade. Ah, sim! Miguel Sousa Tavares também fala da profundeza do azul dos seus olhos!! Acredito que isto possa ser o suficiente para um homem se apaixonar por uma mulher, mas não o é para outra mulher. E como tal, por muito que gostasse de me ter apaixonado por Ann antes do fim que MST criou, e que, tivesse eu outro olhar sobre Ann, teria sido surpreendente, sempre a desprezei. À secura da sua pele, às suas alças finas, à ligeireza da sua sexualidade. Estamos no Equador, for god sake!
E isso revela parte do problema essencial; apesar da qualidade do tema do livro não me agradou particularmente a escrita de Miguel Sousa Tavares, demasiado descritiva e no entanto, tantas vezes incapaz de me transportar completamente para a paisagem de S. Tomé e Príncipe!

No que se refere ao tema em si e ao que uma figura como a de Luís Bernardo representaria na nossa história, Miguel Sousa Tavares procurou esgrimir os argumentos presentes em ambos os lados, muito embora tenha sido politicamente correcto na maioria do tempo. A realidade do esclavagismo, do racismo e do tráfego humano são, ainda hoje, muito mais cruéis e vis do que o apresentado no livro.
O que, apesar de tudo, encontra alguma justiça na inevitabilidade das consequências para o comportamento de Portugal, culminando naquelas que compuseram a história desse período: a queda da monarquia, a implantação da república e o boicote inglês ao cacau oriundo de São Tomé e Príncipe. 

Quanto aos tão afamados erros históricos, infelizmente não possuo conhecimentos suficientes para os ter detectado. Não conheço as ilhas de São Tomé e Príncipe, tal como não estou familiarizada com nenhuma das publicações da época mencionadas no livro, pelo que é um problema que não tenho legitimidade para destacar.

01 julho 2013

Livros - O Jogo do Anjo | Carlos Ruiz Zafón

Como já tinha referido aqui, este livro faz parte de uma trilogia composta por A Sombra do Vento, O Jogo do Anjo e O Prisioneiro do Céu. É importante referir que a ordem de publicação é esta mas os livros podem ser lidos independentemente, já que não é mantida uma sequência cronológica e cada livro é auto-suficiente.
Nesse sentido, O Jogo do Anjo revela-nos acontecimentos e personagens que antecederam a narrativa de A Sombra do Vento, apesar de publicado posteriormente. Conhecemos, por exemplo, o avô de Daniel, bem como a sua mãe, em cenários que já nos são familiares como a livraria Sempere e o Cemitério dos Livros Esquecidos.



Mas, apesar de existir uma ligação entre as personagens dos dois livros, o tom e a atmosfera que definem a narrativa não poderiam ser mais distintos dos do primeiro livro. Este é um livro mais maduro, mais sombrio e que presenteia os seus leitores com uma maior liberdade de interpretação. Para além disso, o autor recorre muito mais frequentemente ao fantástico e ao sobrenatural que n' A Sombra do Vento. Tendo isto em consideração, devo confessar que nem sempre soube qual era a extensão do meu poder enquanto leitora na definição dos acontecimentos, esperando muitas vezes por um esclarecimento que eu não sabia se vinha e com receio de avançar demasiado na minha interpretação até um ponto onde alterasse por completo o rumo da história.

Este livro conta a história de David Martin, um jovem escritor, com uma história familiar trágica. Sentindo-se mercenário do seu talento e escravo de um contrato que o obriga a escrever a um ritmo alucinante, David conhece um editor francês, Andreas Corelli, que lhe faz uma proposta irrecusável, alterando para sempre a sua vida.

O final agradou-me pessoalmente, muito embora sinta que ainda existem algumas pontas soltas em toda esta trama que, acredito, Zafón terá deixado propositadamente.
Sendo a mais significativa, sem qualquer dúvida: quem é Andreas Corelli?
Deus, o Diabo, a consciência de Martin, uma outra personalidade do escritor?!

Existe um diálogo entre o inspector Grandes e Martin que me intrigou e me confundiu consideravelmente.
"Peguei na chave e dirigi-me à porta. Antes de sair, voltei-me um instante. Grandes sentara-se em cima da mesa e observava-me sem qualquer expressão.
- Esse pregador do anjo - disse, apontando para a lapela.

- Sim?
- Desde que o conheço que lho vejo na lapela - observei."

13 junho 2013

Livros - A Sombra do Vento | Carlos Ruiz Zafón

Existem livros que contam histórias tão especiais que nos iremos lembrar delas e das pessoas que as povoavam durante muitos anos, se não o resto da nossa vida.
A Sombra do Vento é um desses livros; com personagens maravilhosas, que desafiam a lógica, descrições intrincadas e coloridas e uma escrita incapaz de se apoiar em definições banais e aborrecidas, que nos apaixona nas primeiras linhas.
É o primeiro livro que leio de Carlos Ruiz Zafón mas certamente não será o último.



A Sombra do Vento começa por relatar a história de Daniel Sempere e do seu pai, livreiro de profissão, no momento em que este último levou o filho ao Cemitério dos Livros Esquecidos.
Cumprindo o ritual de escolher um livro que ali repousava e que, a partir desse momento, deveria adoptar e estimar, Daniel descobre A Sombra do Vento de Julián Carax.
Apaixonado pelo livro que acabara de ler, Daniel procura saber mais sobre o misterioso autor, que para seu espanto é tão desconhecido para o pai como era para si. Encetadas diligências para encontrar mais informações, acaba por descobrir que alguém se tem empenhado em apagar a existência de Carax e de todas as obras que publicou.
O mote está criado para uma história cheia de suspense até ao fim, que não negligencia, no entanto, a cidade e o tempo que contextualizam esta história - a Barcelona da primeira metade do século XX - e a riqueza folclórica da sociedade em questão. Muito embora, Daniel inicie a história, não existem personagens principais, nem tão-pouco um enredo linear de contornos precisos. E apesar de contar muitas histórias de amor, não se resume a isso!

Bem sei que existem imensas pessoas que se esforçam por não gostar do livro pela imensa popularidade que alcançou. Palermice. Apesar de recorrer a algumas fórmulas certeiras, a escrita é envolvente, bem como o enredo e as personagens criadas. Além disso, é uma verdadeira apologia aos livros e à paixão que eles despertam.
Não é um livro moralista, nem prepara nenhuma lição de vida de algibeira para nos atirar no fim, em forma de recompensa. No entanto, poderia citar inúmeras frases que deliciam pela sua lógica desarmante.

O único senão é o fim que merecia maior tragicidade. Mas porque A Sombra do Vento compõe uma trilogia não será a última vez que ouço falar de Daniel Sempere e de Fermín Romero de Torres.
As trilogias não me agradam pessoalmente. Para além do risco que representa para o autor.
Dito isto, logo que possa estou a iniciar o livro que se segue!!! Para, à semelhança deste, ler de uma assentada.

03 junho 2013

Livros - South of the Border, West of the Sun | Haruki Murakami

Este foi o primeiro livro que li de Haruki Murakami, um autor japonês, a conselho de uma amiga.
Devo confessar que, ao contrário da crítica que considera esta uma grande história de amor, achei que se tratava de uma história morna, com pouco de amor à mistura. Mas ainda assim recomendo a sua leitura. Relembra-nos a capacidade infinita que o ser humano possui para sabotar a sua própria felicidade.




Li algures que quando alguém faz uma avaliação sobre um livro que leu, deveria evitar fazer juízos de valor.
Não sei se tal será possível. Implicaria desligar todos os filtros que criei, desde que nasci, e olhar para este romance como se nunca tivesse amado, como se não reconhecesse certos traços de personalidade, como se nunca tivesse sofrido e feito sofrer.
Claro que quando falamos de um romance publicado originalmente em 1992, sob os padrões da cultura japonesa da época, tem de existir um distanciamento que nos permita contextualizar esta história.
Mas quando falamos de carácter, de qualidades e defeitos intrínsecos à condição humana, é normal que a tendência seja para comparar com as nossa próprias experiências. E, sem dúvida, esta é uma perspectiva muito masculina do amor, com a qual não me consegui relacionar totalmente (enfatizada pelo facto de esta história se situar no seio de uma sociedade patriarcal).

A história centra-se no percurso de Hajime, filho único, algo raro no Japão da época, o que irá moldar a sua personalidade e acentuar o seu lado individualista. Desde a sua infância e a descoberta da amizade ao lado de Shimamoto, até ao momento em que, já casado e pai de duas filhas, reencontra a amiga para definitivamente permitir que os sentimentos que (ainda) nutria por ela sejam despertos.

Mas a palavra que sinto cravada a ferros na minha mente sobre este romance é morno. Tudo nele é morno. O começo que demora a agarra o leitor, a relação entre as personagens... até as cenas de sexo foram incapazes de provocar um rubor na minha face. Têm tanto de explícito como de desapaixonadas.
Para além de que o mistério exagerado à volta do percurso de Shimamoto, não me permitiu criar empatia com a personagem. Mistério não deve ser literalmente a ausência de informação.

O melhor deste livro é, na minha opinião, a construção da personalidade de Hajime. Que, tal como acontece na realidade, pode ser constituída por características, muitas vezes, contraditórias. Quanto a Hajime, acredito que apesar da sua tendência para magoar quem o ama, seja basicamente uma pessoa decente.
Apesar disso, a sua tendência para a traição é um comportamento muito explorado neste livro. Desde a inconsciente, a física, a moral, até à que é perpetuada contra a sua própria pessoa. Pela minha experiência, a obcessão por alguém do passado, inalcançavel, não é mais do que uma traição para com o presente. Nunca tive a tendência de Hajime para a autodestruição. Para outros fará todo os sentido. 
Por isso mesmo, o fim deixa em aberto imensas possibilidades sobre o destino destes "star-crossed lovers". Basta imaginação.
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